O Mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam – Evandro Afonso Ferreira


ISBN-13: 9788501096418
ISBN-10: 8501096415
Ano: 2012 / Páginas: 128
Idioma: português 
Editora: Record

O premiado Evandro Affonso Ferreira escreve sobre um homem atormentado que experimenta a proximidade dolorosa do mundo. O romance emociona pela forma como fala da loucura, do amor, do abandono e da solidão, enquanto espera - andando e observando os escombros da vida urbana em detalhes - o retorno de sua amada, a que lhe deixou bilhete dizendo ACABOU-SE, - ADEUS.




RESENHA

“A loucura às vezes chega quando se é tragado pela perda, é cegueira lúcida que despedaça a alma.” Najla Assy

Ensaio? Monólogo? Loucura?

Sim! Loucura!

O livro número 5 do  Projeto Literatura Verde e Amarela em parceria com amiga afinada na literatura Cilene Resende - Meu Vício Literário, resenha de sua autoria Clique Aqui.

Um narrador maníaco, que deixa qualquer leitor perturbado; é inteligente, pois ele sabe, sente a sua realidade, condição de vida e, mesmo no meio da loucura, ele aceita de um modo próprio; literato, pois suas referências chegam a ser surreais para os padrões dele; porém estimulante, mostrando que, mesmo no meio de uma batalha consigo mesmo, seu conhecimento e gosto pela literatura é abundante.

“Quando tenho um pouco de dinheiro, compro-me livros. Se sobrar algo, compro-me roupa e comida.”(25)

Foto: Jornal Rascunho
Evandro Afonso Ferreira é o autor dessa obra delicada e vencedora do Jabuti em 2013 Seu histórico na literatura iniciou após abandonar a publicidade por consequência de um infarto. Assim, em São Paulo abriu um Sebo Sagarana, pondo à venda o seu acervo pessoal 3 mil volumes. Manteve a loja até 2002. Em 2005, voltou à atividade de livreiro, com o sebo Avalovara. Sua jornada como autor principiou com o livro de humor “Bombons Recheados de Cicuta”, que mais tarde renegou. Explorou a sonoridade da língua portuguesa, e suas interseções com o tupi-guarani e o iorubá, nos livros de contos que publicou nos anos seguintes. Ganhou o Prêmio APCA de melhor romance de 2010 com Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus e o Prêmio Jabuti de 2013 com está obra.

“A dor do outro tem para nós a duração do fogo-fátuo.”(16)

Mas neste post especial da LVA, não iremos só conhecer um autor, mas sim dois autores. Um é o proprietário da obra e o outro é o  inspirador do mesmo.

Erasmo de Roterdã (ou Rotterdam, ou Roterdão) foi um humanista e filósofo holandês famoso pelo seu amplo conhecimento, dos mais diversos assuntos ligados a gnose humana, além de um dos maiores críticos do dogma católico romano e da imoralidade do clero. Entre os vários ramos do conhecimento, que interessaram a Erasmo, destaca-se sua dedicação instrutiva das línguas antigas, o que semeou o terreno para o estudo do passado, em particular dos relatos do Novo Testamento e dos primeiros pensadores da Fé Cristã. Inspirados nos clássicos greco-romanos, os intelectuais da época como Erasmo defendiam a exaltação da beleza e do prazer, considerados mais interessantes do que as abstrações da filosofia escolástica. Outras expressões humanas condenadas pela Igreja, como o prazer físico e o bom humor não conflitam com o cristianismo em sua moderna visão. Convites de nobres e atividades acadêmicas levaram Erasmo a viajar pela Europa até sua morte, em 1536, em Basiléia, na Suíça.

Suas obras popularizaram-se pela imaginação e estilo claro e descritivo, e suas sátiras lhe renderam bastantes inimigos. Entre seus trabalhos mais importantes estão:  O Elogio da Loucura (1509); De Duplici Copia Verborum et Rerum (1511); Os Pais Cristãos (1521); Colóquios Familiares (1516-1536); De Libero Arbitrio (1526); As Navegações dos Antigos (1532) e Preparação para a Morte (1533).

O motivo de falar em Erasmo de Rotterdam é simples, em toda essa obra vencedora do Ferreira, o mendigo idolatra, conhece e tem como um "mantra" o nome deste autor do quinhentismo.

“A-hã: Erasmo de Rotterdam. Observador implacável. Nossa trajetória de vida é mesmo inexorável.” (17)

A loucura é protagonista. “O mendigo” é uma leitura delicada, fantasiosa e filosófica, porém bem compreensiva. Não sei se pela condição do personagem de morar pelas ruas da cidade ou pelo fato da loucura.

A loucura por um amor;
A loucura por um autor;
A loucura pelos amigos e companheiro de rua;

Os apelidos que ressoa mais como mantras:
Menino-borboleta;
Mulher-molusco;
N ou Ns;
Maltrapilho acoolotra;

ACABOU-SE, ADEUS


ACABOU-SE, ADEUS - tudo culpa dessa pequena frase, deste bilhete, a narrativa é toda voltada para essas duas palavras, que muda a vida do protagonista.

Contêm várias revelações de desabafos e explanações sobre suas condições e delírios.

“Não ando a trouxe-mouxe pelas ruas da cidade, numa desvairança sucessiva por obra do acaso. Perdendo-a perdi ato contínuo o juízo a prudência o bom-senso” (28)

A realidade é algo sofrido na leitura, doe cada desopressão.

“No anoitecer a sensação de abandono é ainda maior. O frio também. O Medo também... deveriam desinventar para nós esse espaço em que o sol está abaixo do horizonte.” (33)

Mas, o delicioso da obra é a inteligência do escritor em deixar suspense e nada definitivo em cada página;  até o final nunca saberemos se a consequência de cada fato foi loucura, delírio ou foi um acontecimento isolado, uma escolha.

Literatura Verde Amarela  número 5 foi uma leitura devoradora. Como leitora amei poder conhecer, admirar e ter saudade desta obra. Como escritora, que acaba de iniciar sua jornada, fiquei horada de analisar e estudar uma obra com referências literárias cativante e uma escrita peculiar, com um enredo singular.

O Vencedor do jabuti conquistou e encantou-me.  O seu reconhecimento é digno e merecedor.



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