Eu não sei ter – Marcelo Candido



Ano: 2011 

Páginas: 204

Idioma: português 

Editora: VIRGILIAE


Eu Não Sei Ter' discute as relações familiares e coletivas pelo olhar de um narrador controversamente sincero. Mais do que um homem com dificuldades de se relacionar e de encontrar uma trajetória que lhe traga paz na vida, Justiniano é um homem disposto a encarar seus erros e a questionar os valores da amizade e da fidelidade. Quando o seu grande amigo, Gregório, sofre um grave acidente, Justo vê-se impelido a ir cada vez mais fundo em seus questionamentos, que envolvem não só o amigo, mas também Cândida, esposa de um e amante do outro.







Marcelo Candido de Melo, é escritor e editor, fundador da Livros de Safra. Formado em administração, já cursou matemática mas, apesar de gostar de números, se achou mesmo nas palavras. 






RESENHA

“No começo dói um pouco, vem uma sensação de fuga, porém em silêncio, sem contar a ninguém, o mais sensato é olhar para o obtido, esquecer o ausente e celebrar o acumulado, por menor que seja.”. (p.18).

O prazer da literatura não é somente gracejar com a história, extasiar-se com mocinho ou sentir fúria do personagem mal. A literatura proporciona rescindir tabu, entender a dicotomia sobre as regras da vida.  Regras estas, impostas na maioria das vezes, por uma sociedade sem compaixão ou extremista.

Eu não sei ter é mais uma obra do escritor Marcelo Cândida, pelo selo Virgilia. 

Justiniano é um personagem que foge dos padrões convencionais. Sua conduta nada crível, o faz remeter a meditações, protótipos da vida, sociedade e comportamento.

Beirando os 50 anos, sem família, galanteador assumido, gosta do prazer de ter companhias sem compromissos. Mas também é homem de sentimentos, mesmo que estes, sejam fora do arquétipo. O enredo apresenta um protagonista que se vê em uma situação delicada e, ao mesmo tempo inusitada. Pois seu melhor amigo, o Gregório, está em coma, quase vegetando, por culpa de um acidente.

“O casamento é cruel para as amizades – e a amizade também pode ser cruel para o casamento, depende da escolha que se faça.”.(p. 22).

E a surpresa maior, é quando ele descobre que seu amigo não é muito diferente dele. Muito pior: está em coma e não tem como afirmar nada.

Sarcástico, Justiniano em todo momento não tem medo de expressar sua indignação com condutas comportamentais do próximo. Agro pela solidão que ele mesmo cultivou; ácido com uma perda dolorosa; demasiado até quando é irônico para escolher a “mulher de sua vida”, como oferecer um bonsai, para aquela namorada, depois de alguns meses juntos. A filosofia de Justiniano como o bendito é: Se bonsai fosse cativado, a moça era a mulher ideal. Mas é óbvio que isso não funcionou.


Bonsai
CADA UM COM SUA MANIA
"Bonsai é uma palavra japonesa que em português significa “plantando em uma bandeja”. São árvores madurasminiaturizadas através de podas contínuas de galhos e raízes e amarrações com arame.". Fonte: Significados, Clique e conheça sobre o Bonsai

A narrativa é peculiar ao autor. Narrada em primeira pessoa, algumas vezes me fez lembrar o livro As intermitências da morte de José Saramago, talvez por ter tema forte, mas o certo mesmo é a lembrança do estilo de escrita. Cada um com suas peculiaridades, ao mesmo tempo ambos fugindo do convencional.  


“Ela não disse nada, me puxou para o sofá e me pôs no seu colo. Fiquei assustado, mas gostei. Fez carinhos na minha cabeça e depois de uns dez minutos disse: Na vida não dá para estender tudo. A única certeza é que para quem está vivo a vida tem que continuar, nem que não seja vivida.”. (p.33).

O personagem Justiniano descreve em tom de desabafo, como se encontrasse em um divã. O interessante e que marcou a leitura, é ver o pensamento do protagonista mesmo quando é outro personagem o dono da voz. Explicando: Não existe diálogo padrão, mas existem diálogos intensos e tão enternecedores ou mais entre os integrantes da história. É bem escrita, tem palavras bem posicionadas, o que facilita o ritmo da leitura.

“Não nos colocar na posição dos outros é a nossa falha mais comum, a razão da maioria dos desencontros.”. (p.36)

Os personagens secundários proporcionam mistério em todo o decorrer da narrativa. Gregório, Cândida, permitindo momentos conturbados e Lygia, que entra devagar e sai silenciosamente.

As escolhas e filosofia de vida de Justiniano podem causar repulsa ao leitor mais recatado. Entretanto ler, compreender as escolhas do mesmo, sem julgar, sem hostilidade, foi o que senti com essa obra.

“... as pessoas próximas da gente perdoam tudo, menos ser ignoradas... Na leitura, também concordei que a amizade é o mais nobre dos sentimentos, o mais intimo dos sentimentos, e por isso tão raro.”. (p.196).

Pessoas de erros e acertos, isso ocorre o tempo todo. 

Errar...
               uma, 
                      duas, 
                               três... 
                                         sempre errar, aprender e consecutivamente.

A vida é uma constante faculdade, você pode escolher, mas jamais estará imune dos erros.


Nota máxima. Leitura recomendada.




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