A Última Dança - Marcos Jr. - Final







A noite estava mais iluminada que qualquer outra noite naquela cidade. A iluminação não era ofuscante apenas pelas festas de réveillon que se aproximavam, mas também pela beleza e formalidade presente nos trajes de quem se dirigia a aquela apresentação. Poucas pessoas da cidade não tinham o interesse de assistir a peça final. Apesar da vontade geral, aquele auditório suportava apenas mil pessoas, e todos os ingressos haviam sido vendidos rapidamente para os que tinham algum conhecimento da área, para as famílias dos bailarinos e para aqueles que tiveram disposição o suficiente para acordar cedo e conseguir os primeiros lugares da fila.

No backstage, Eli se desprendia do seu nervosismo alongando os músculos dos membros inferiores e trabalhando a respiração, como sua primeira professora havia ensinado. Os minutos pareciam correr no relógio central preso à parede do camarim. Quanto mais tempo passava olhando, maior era a velocidade que os ponteiros se perseguiam.O nervosismo seguia em ondas de frequência. Por alguns instantes mais à flor da pele, em outros, quase inexistente. A preparação já estava perto de terminar quando ouviu duas batidas fortes na porta. O nervosismo havia escondido as outras duas batidas que já haviam sido dadas anteriormente, em menor força. Ao abrir encontrou Mário, trazendo, em suas mãos, um lindo buquê de rosas vermelhas. As palavras encorajadoras vindas do namorado trouxeram a calma e a tranquilidade necessária para o coração acelerado da pequena bailarina. Apesar de dançar a tanto tempo, nunca houvera o feito para uma plateia tão grande.

O nervosismo não era motivado apenas pela apresentação daquela noite.A viagem que estava por vir também desquietava seu coração. A notícia da viagem ainda não havia sido dada a Mário.Não queria estragar a sua última apresentação na cidade, muito menos brigar com alguém que tinha tanto amor. O sentimento dos dois era verdadeiro e nem o tempo poderia acabar com isso, pelo menos era o que ela sentia.

O último beijo trocado antes da apresentação, após Mário se despedir e se encaminhar para o lugar marcado para ele, ao lado dos sogros, na primeira fila, foi suave, apesar de ardente, como nunca houvera sido antes. Foi o melhor beijo que aquele casal já havia trocado desde o primeiro momento juntos.Faltava apenas um minuto para se dirigir ao palco, de frente para o espelho que ia do teto ao chão, quando Eli conseguiu avistar, pela primeira vez, a beleza da transformação que todos sempre disseram existir em seu físico. O longo vestido vermelho que ia até o chão, com uma fenda na região mediana das coxas, alguns centímetros acima dos joelhos, colado ao corpo, só exaltava ainda mais a beleza das suas curvas. O cabelo preso por uma haste de madeira escura a deixava com a aparência semelhante à de uma oriental.

Seus olhos ainda seguravam algumas gotas das lágrimas que haviam acabado de cair quando mais uma vez uma batida na porta despertou sua atenção. Era chegada a hora.

As luzes estavam totalmente apagadas e o local parecia totalmente deserto quando Eli entrou no palco. Seus movimentos pareciam acompanhar, copiosamente, cada acorde daquela música. A leveza na execução dos seus gestos era capaz de deixar qualquer um boquiaberto. A multidão presente explodiu em palmas quando, após alguns passos silenciosos, Eli apareceu em uma posição fetal no centro do palco, auxiliada por um turbilhão de luz focado nela, comprovando que o show iria começar naquele momento.

O espetáculo já havia chegado ao seu meio quando o carrasco finalmente entrou em cena. Na segunda metade do show as atenções eram divididas em um casal. A dança era em par.O mesmo par que já havia sido motivo de discussão entre o casal de namorados por mais de uma vez. Apesar da cara feia de Mário, o show tinha que ser feito, e assim foi. Todos os paços realizados pelos dois mostravam a sintonia existente entre os dois, além das muitas horas gastas com treinos. Andavam pelo palco como se fosse um corpo só. Colados, tanto quanto o primeiro vestido de Eli, que agora já havia realizado a troca de roupa.

A música já diminuía de volume, o que mostrava que a apresentação já chegava perto do fim, quando, aproveitando o último passo ensaiado, com o corpo de Eli em suas mãos, Augusto, o companheiro, arrancou-a um beijo. Toda a plateia observou atônita, por apenas cinco segundos, e explodiu em palmas, acompanhadas de gritos histéricos, mais fortes que as do início. Mário não estaria mais na plateia pra assistir a reação da namorada. Suas pernas se moveram rápido o suficiente para deixar o local antes que as palmas se encerrassem. A última vez que os olhos dos dois se cruzaram.

Ninguém, nem mesmo os pais, viram o filho para o resto da vida. Apesar da tristeza pela reação do namorado, Eli não deixou aquela atitude de Augusto atrapalhar sua noite. Muitas foram as congratulações na saída do espetáculo. Todos que presenciaram aquela apresentação podiam visualizar o futuro promissor que ela teria no mundo da dança. O caminho até casa foi marcado pelo silêncio da parte da modesta estrela. Os pais sabiam o motivo, mas mesmo assim tentaram a animar com tanto afinco que, algumas horas depois, conseguiram arrastar a filha para a festa de réveillon, mesmo sem muita vontade.


Sua beleza foi mais uma vez exaltada pelo vestido branco que usava e pelo sorriso estampado em seu rosto, apesar de não estar tão feliz quanto queria. Tinha apenas alguns dias para encontrar Mário, tentar fazer com que entendesse que aquilo não havia sido combinado, mas não teve chance. Os pensamentos, mesmo longe, sumiram quando a contagem regressiva começou. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um fim.



Marcos Jr.


Obrigada pela participação nessas 4 semanas no blog.
Sucesso na sua jornada como Escritor.
E Parabéns!
A Última Dança foi sucesso total. Como final The Best...

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