Perdi o controle - TMartins



       Em menos de um mês perdi meus eixos, o juízo, a hora, o ônibus.Perdi meus textos, arquivos, contatos. Perdi os assuntos, as novidades, os blefes. Perdi a graça, o meu eu-lírico, o lenço, documento, humor, a malícia.

      Perdi o Time, a aposta. Perdi de ver a banda passar, o bloco, a pipoca, os filhos de Gandhi. Perdi meus cheiros, jeitos, trejeitos, tiques e manias. Perdi a vergonha, gagueira, o medo. Perdi as chaves, a fala, e depois de gozar perdi o ar. Perdi a calma, a razão, tropecei e perdi também o passo. Perdi o meu primeiro amor, minha mãe, o enterro, o caminho. Perdi o luto, a motivação, alguns amigos. Perdi a virgindade, a crença, o troco. Perdi a rodada, o momento, o passado, a ilusão de futuro bom.


      
 Perdi o voo, algumas lágrimas, memórias, anotações. Perdi compromissos, o pôr-do-sol, a maré baixa, as sete ondinhas. Perdi a queima de fogos, o recomeço, o adeus. Perdi a paciência, os óculos, o apreço. Perdi a vontade, a fome, a sede. Perdi o telefonema importante, os exames de rotina, a simpatia. Perdi o refrão, ritmo, o solo esperado. Perdi o interesse, o tédio, o programa. Perdi o raciocínio, o feriado, a piada. Perdi a bolsa, meus pertences, a carona. Perdi o sorteio, a surpresa, as borboletas no estomago. Perdi o desfile, a inveja, o sabor. Perdi o frio, conforto, brisa, rede, roupas, sapatos, namorados, amores. Perdi o tesão.
      Perdi a senha, o cadastro, o acesso. Perdi a vez, a apresentação, perdi a prova e acabei de recuperação. Perdi meu tudo, meu nada, todos os quase’s, prováveis, possíveis, certezas, argumentos e coragem.



     Perdi o colo, afogo, carinho. Perdi as mensagens da madrugada, flores, a inquietação. Perdi o brilho no olhar, o sorriso largo, a ansiedade. Perdi a moda, a conexão, a comanda, wi-fi, curtidas. Perdi a noiva entrando, o pecado sendo confessado, a amante chorando. Perdi um filho, a culpa, a alienação. Perdi o voto, a esperança, a voz, o deslumbramento, a distopia. Perdi o rock, o hippie e o pop. 

Perdi o controle, o jogo, minha comodidade. Perdi você, nossa história, as nossas fotos, seus áudios. Perdi o beijo, o pênalti, último capítulo, desfecho. Perdi a vontade, o rumo, Até que finalmente me perdi e só então percebi que a vida é composta por perdas.

       Para não perder o costume, perdi a chance de escrever um texto.


TMartins

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