Leitor Escritor/Escritor Leitor - Antônio LaCarne



Alguns pediram, então o quadro Leitor Escritor/Escritor Leitor, retorna com força. Enquanto decido a periodicidade com a procura, curtem o primeiro texto do Leitor Escritor LaCarne (Bio no final)

Daqui a pouco tem mais









BOYFRIEND


Carinho,

me resgatou do buraco, das barras, das putas mágoas de bêbado apaixonado – sou um bruxo antes dos trinta & não te absolvo por me abandonar antes do segundo beijo, como se eu fosse uma cadela esfomeada, doida por pau, segredo & literatura. 


Penso nos trópicos, na meia dúzia de bananas: um pingo de sensibilidade longe da tua zona de conforto  –  olhar de pantera mascarado por fluxos de escuridão, quando dei adeus às sleeping pills & enchi a cara numa compensação difícil.


Nem porra, nem puta – você criou asas enquanto eu despencava do meu próprio andar de um metro & oitenta, então resolvi escrever um livro sobre a pós-modernidade que oprime, deprime & que não manda flores no dia seguinte.


Amei você quando não havia sol ou pudor. 


Espinhos, cristais escondidos, falésias: coração comparado às andorinhas da paixão universal. 


Mantive os diários sob o poder das gavetas. mutilação das linhas de expressão quando sonhei com o ator pornô húngaro a me livrar da frigidez numa cama chinfrim de motel  pago com o limite do meu cartão de crédito. 


Escolhemos a suíte pole dance com hidro & demarquei cada centímetro com a língua, olhos, nádegas em profusão – depois fui embora com um sorriso de viúva alegre estampado nas fuças.


O lado b do amor tão obscuro, vendendo meu próprio peixe para que você me ame, ou na pior das hipóteses, desmembrar as vértebras do meu prazer em ambientes dominados por cães na sarjeta & dignidade na estratosfera. 


Mas pago o preço, encaro as duas faces da moeda & planejo cada passo na alcova. 

os quadriláteros do abandono estão aqui representados, dançamos ao som do jazz diante dos canteiros centrais & das vias expressas não plastificadas.


Resta-me rasgar as tuas pernas, queixo, memória & afeto aos frangalhos: tiro de espingarda no coração. aí o clima esquenta & sou obrigado a me desfazer das histórias onde interpretei megeras, datilógrafas ninfomaníacas, divas abandonadas. 


Me livro do luxo, da intelectualidade & do frio. 

Telefono para Dr. salomão que me atende entorpecido de recusa. ele diz que já fomos longe demais no tratamento, não há cura possível. Ele então prescreve doses cavalares de um medicamento cujo rótulo exibe fogo ao redor da boca, boca ao redor do fogo. tomo dois comprimidos sem pestanejar. 


Dr. salomão sorri, glamouroso – segurando a bengala importada do egito. 

como pagamento, ele me estapeia a bunda. 

& pairo num terceiro andar de um corredor às quatro & trinta & sete no calor insustentável do brasil. (você precisa abrir os olhos). Mas você me observa reticente & o combustível do momento é o pensamento claustrofóbico & oscilante naquele quarto úmido de motel. 
pole dance com hidro, lembra?


As fomes que não se descosturam. 

busco fôlego para materializar o livro. 

Arbustos, jarros, sombra & coração impecável para as consequências.
você que me culpa & que não me explora os olhos, os ossos do ofício, os gatos abandonados, o gato por lebre. 
Tudo em vão como um lábio superior desenhado sem esmero na pintura.
& diante do ex-amante proponho um batuque, um samba, uma pausa na coreografia. Tomo mais um gole do perigo que eu mesmo interpretei. 
da janela, fotografo as luzes esparsas do centro da cidade.
projeto: obsessão, terror & glória. 
25 de fevereiro de um ano qualquer:     
a vida é um fist fucking cravejado de diamantes pontiagudos.



***

MORRO DE INVEJA 



À meia-noite eu deitei na cama e rolei na madrugada sob os lençóis do abandono enquanto, ao deus-dará, eu me perdia na cidade entre o asfalto, o calor insuportável, adolescentes maquiavélicos e suas calças jeans grudadas ao corpo que nem eu, ou os deuses mais próximos, seriam capazes de alcançar. Mas quem sabe, num universo paralelo, Mercúrio seria o centro do universo onde cachoeiras de fogo rompem o amor que você joga no lixo. O amor por você é uma espécie de bruxa que sofre horrores, encara uma super barra e dança sozinha na noite. Você é bruxa num castelo sem homens, sem músculos, sem a piedade das esquinas. Morro de inveja de você, de mim, de todas as mentiras. Morro de inveja do quadrado, do oceano Pacífico e das pérolas aos porcos.



***



PAIXÃO EXTRATERRESTRE



Li os teus dois poemas no jornal
durante aquela vasta solidão
em que me vi sem homens,
os dois braços que me partiram
ao meio do percurso numa
refrescância de piscinas ao deus-dará
onde eu mataria um leão por dia,
salpicando de dor o livro e o
meu corpo sob a chuva tempestiva
de verão, azul, um menino descalço,
sujo e sem nome, duas mulheres
que sorriem enquanto ando tão
rápido e com as mãos nos bolsos,
pois em todas as esquinas eu
esqueci perdidamente o olho
no buraco da fechadura, e você
não entende do que é feito o meu país,
mas as tuas andanças oscilam
entre uma ponte-aérea ou viagem
internacional de cegos, pessoas
sem a mínima classe, ou uma
echarpe que te consome e que
não me ensina a viver a grosso modo,
cada traço devidamente organizado,
os dois beijinhos na festa,
eu fugindo do sexo já a me satisfazer
numa futura crise de remorsos,
compaixão, inveja do que eu jamais
permitiria, à mercê dos numerosos
amantes aqui destronados, molhados
de prazer, gênio indomável,
nave espacial do extraterrestre
que se apaixona por mim e
anota o número do meu telefone.

                              
                                     ***


LEATHER



Todas as bruxarias que você construiu
despencam sobre o meu jeans culpado de tudo,
desabotoei a camisa & me pus sobre travessas de inox
tão verticais quanto o beijo que você morde & assopra,
aí sou a pessoa ferida mais legal do mundo,
nego a violência & as páginas de ménage à trois na internet,
mantenho o carão diante dos arbustos que você cuspiu,
o girassol de uma mão que me afaga as lágrimas,
rasgação de amor que não me protege das rugas,
os centímetros que fariam de mim
a pessoa mais sexualizada do universo.











MINI-BIO

Antônio LaCarne é escritor, nasceu em 1983 e mora em Fortaleza, Ceará. É autor de "Salão Chines" (Patuá, 2014), "Elefante-Rei: Poemas B" (CBJE, 2009). Seus textos estão presentes em coletâneas, suplementos literários e blogs da internet. Seu blog pessoal é oimpenetravel.tumblr.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário


© BOLG DA MARY - 2015-2016. Todos os direitos reservados.
Criado por: MARY DESGN.
Tecnologia do Blogger.
imagem-logo