Maicon Tenfen - Entrevista - Semana Escritor







Maicon Tenfen 

Nasceu em Ituporanga, interior de Santa Catarina, no último dia de 1975. Formou-se em Letras em 1998. Entre 2000 e 2006, concluiu os cursos de mestrado e doutorado em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina. A partir da publicação do primeiro livro, em 1996, lançou duas dezenas de títulos entre crônicas, contos, ensaios e romances. Por mais de dez anos escreveu crônicas semanais para o Diário Catarinense. Também colaborou com o Jornal de Santa Catarina, assinando uma coluna diária entre 2007 e 2011. É professor de Literatura Brasileira na FURB (Universidade de Blumenau), ministra oficinas de redação criativa e já realizou mais de 400 palestras em escolas de ensino fundamental, médio e superior.

Informações da Editora Bitura (Clica Aqui)


Maicon Tenfen contou um pouco para o blog Leituras Plus, em um entrevista sobre sua extensa vida de escritor, literária e novidades sobre sua carreira. Acompanhe a seguir:


Ao lembrar da sua infância, quais livros vêm em sua mente como uma leitura inesquecível? Você e sua família tinham hábitos de leituras? 

Sou filho de agricultores. O livro, em minha casa, não era um objeto muito presente. Mesmo assim fui muito incentivado por meus pais, que sempre procuraram investir na minha educação e na dos meus irmãos. Num primeiro momento da minha história de leitor, além dos livros da pequenina biblioteca escolar, li muitas histórias em quadrinhos. Naquela época havia um tremendo preconceito contra o gênero, mas hoje em dia qualquer pesquisador da leitura sabe como as HQs são importantes para a iniciação de jovens leitores.

Segundo fontes diversas, o seu hábito por leitura e os primeiros passos para a carreira de escritor, surgiram ao morar por dois anos e meio no seminário São Francisco de Assis, localizado no Alto Vale do Itajaí, em Santa Catarina.  Como foi sua experiência nesse período com a leitura? O que incentivou a criar o hábito da leitura? Você lembra das suas leituras neste período?

Sim, o seminário foi muito importante para que eu me apegasse de vez à leitura. A primeira coisa que ocorreu foi uma passagem um pouco natural e um pouco forçada dos quadrinhos para os livros. Os estudantes eram literalmente obrigados a realizar uma hora de leitura todos os dias: 15 minutos de leitura bíblica (por motivos óbvios), 15 minutos de leitura espiritual (vidas de santos, autoajuda religiosa etc.) e 30 minutos de leitura recreativa (contos, romances, crônicas, poemas). É claro que o gênero recreativo era o nosso preferido. No princípio, a leitura obrigatória era um tremendo pé-no-saco. Com o tempo, entretanto, você ia se acostumando à rotina, sinal de que a tal obrigatoriedade de leitura não é tão abominável quanto prega a pedagogia moderna. Eu, por exemplo, nunca me senti “traumatizado” por causa disso. Ao contrário: descobri livros e autores inesquecíveis. Li de tudo um pouco, mas me lembro com mais saudade da Coleção Vaga-Lume e dos livros de aventuras de Karl May.

A admiração pela escrita nasceu antes ou durante seu curso de Letras?


Bem antes. Aos doze anos, ainda no seminário, escrevi meus primeiros “livros”. Eu não conhecia o termo na época, mas hoje sei que eram dois fan-fictions sem noção. O primeiro se chamava Os Aventureiros do Amazonas e fazia referência ao universo dos filmes de Indiana Jones (também gosto muito de cinema). O segundo, cujo título não lembro, era uma história de ficção científica que tinha um Jedi como protagonista. Doze anos de idade... Dá pra entender as minhas escolhas, né?


O que fez você optar pelo curso de Letras?

Achei que seria o curso que mais me aproximaria do mundo da escrita, da literatura, da língua portuguesa. Um raro caso em que estive certo ao tomar uma decisão.

Qual o papel do escritor como educador na sua visão; em um país em que o hábito da leitura ainda é pequeno?

O Brasil possui um mercado editorial instável e contraditório. Aqui, se você quiser ser escritor, automaticamente se tornará um incentivador do hábito da leitura. Não há outro caminho. Você visita colégios, faz palestras, tenta entender a realidade do leitor contemporâneo. Vai ficar falando apenas do seu livro? Claro que não, até porque isso não teria a menor graça. Você acaba falando sobre os livros que leu, ou sobre os que ainda pretende ler, e assim demonstra às pessoas que sempre existe uma possibilidade de descoberta entre duas capas.

Quais escritores atuais e mais antigos são inspirações para a sua carreira?

Vários. Provavelmente, se eu responder essa pergunta daqui a um ano, a lista será diferente. Mas alguns autores sempre permanecem. No caso dos brasileiros, sempre cito Machado de Assis, Érico Veríssimo e Rubem Fonseca, três autores absurdamente diferentes, mas todos mestres na arte de contar histórias por escrito. Os estrangeiros variam mais, mas gosto muito do José Saramago, do Mario Vargas Llosa e do Roberto Bolaño. Passo por temporadas, como todo leitor. Às vezes descubro um autor novo e leio todo o possível de e sobre ele. Depois enjoo e parto para outra.

Qual foi sua primeira obra publicada? Como foi a experiência?

Entre a Brisa e a Madrugada, uma noveleta publicada em 1996. Eu tinha 20 anos na época. A experiência foi péssima. Descobri o inferno do mercado editorial brasileiro, uma experiência que fiz questão de retratar ficcionalmente no meu segundo livro, Um Cadáver na Banheira. A primeira publicação é sempre uma prova de fogo. Mas existem as compensações. Saber que as pessoas estão lendo o que você escreveu, ou seja, estão participando do seu sonho, é uma experiência indescritível.

Como é seu processo para elaborar os personagens? E as histórias? Espelha no meio de convivência, pesquisa, ou cria sem focar em algo ou alguém?

Normalmente parto de uma história que desejo contar. Para sustentá-la, obviamente, preciso criar personagens consistentes, sólidos, verdadeiros. O processo é demorado, e pode levar anos para se desenvolver na minha cabeça. De repente, quando me dou conta, estou escrevendo. É algo meio impulsivo e indisciplinado. Só depois é que me lembro de fazer um planejamento mais detalhado. Se chego a esse estágio, sei que estarei pronto para o trabalho braçal. Escrever um romance exige um empenho fora do comum. Se não chegar a esse estágio, significa que aquela história vai para o lixo. De cada dez tentativas, mais ou menos, acerto duas. É um processo natural para mim.

Como você avalia o mercado editorial no Brasil? Quais dificuldades encontradas?

O mercado editorial é uma merda sem tamanho. Livreiros amadores, editores charlatões, distribuidores negligentes, leitores deslumbrados com "breguices" estrangeiras, escritores carreiristas, o quadro é deprimente. Todo o sistema é viciado, inclusive por razões históricas. Tradicionalmente, os escritores brasileiros sempre foram funcionários públicos. Não escreviam por dinheiro ou sustentabilidade profissional. Escreviam por fama, por reconhecimento de compadres e academias fajutas, por premiações simbólicas e muitas vezes fraudulentas. Escrever para o público sempre foi visto como uma atitude de mercenários. O bom mesmo era escrever para os críticos, já que um livro raramente se tornaria best-seller entre nós. Até hoje sofremos as consequências dessa prática. Por que você acha que a imensa maioria dos nossos leitores torce o nariz para autores nacionais? Por que acha que preferem ler as séries traduzidas a se arriscar num autor do próprio idioma? Os críticos e os professores também não ajudaram muito. Durante mais de 150 anos, os intelectuais com colunas em jornalões decidiram o que as pessoas deveriam ler ou não. Por que a fantasia, a ficção científica e a literatura de terror nunca se desenvolveram no Brasil? Simplesmente porque os nossos intelectuais não deixaram. Ou você escrevia sobre a seca no nordeste ou sobre a violência na cidade grande. Do contrário não seria literatura séria. Logicamente, nossos leitores, que não são poucos, passaram a se alimentar da ficção científica, da fantasia e do terror traduzidos, ignorando autores nacionais – alguns muito bons – dos mesmos gêneros. Felizmente, com o advento da internet, essa realidade está mudando aos poucos. Para não me alongar, devo dizer que sou grato a meus editores atuais, exceções no cenário que descrevi, gente séria que trabalha sério, mas no fim das contas não adianta tapar o sol com peneira. De maneira geral, falta muito para o nosso mercado amadurecer e tomar vergonha na cara.


Você reside no Sul do Brasil, próximo aos grandes centros como São Paulo. Encontrou dificuldades para divulgar seu trabalho residindo fora do eixo São Paulo e Rio de Janeiro?

Sim, muita dificuldade. O mercado simbólico brasileiro sempre esteve muito concentrado no eixo Rio-São Paulo. Podemos estar próximos geograficamente, mas há um universo de distância em termos ideológicos. É preciso ter paciência para chegar lá. Hoje publico basicamente por duas editoras: a Gryphus, do Rio de Janeiro, que leva adiante as minhas obras mais adultas, e a Biruta/Gaivota, de São Paulo, especializada em literatura infantil e juvenil. O advento da internet está proporcionando uma leve descentralização, mas tudo ainda gira demais ao redor do eixo. Lá estão os principais meios de comunicação, as principais editoras, os principais referenciais históricos. Claro que há coisas interessantes em outros estados, mas nosso olhar permanece condicionado.

Seu trabalho mais recente é o livro Quissama. Segundo pesquisas, foi um livro muito bem trabalhado. Com profissionais gráficos, com belas ilustrações no livro; músicos (Banda The Zorden) que compuseram especialmente para o livro. Você fez questão de vivenciar a obra, conhecendo os lugares que são citados no livro. Qual a importância para o escritor de ter este tipo de trabalho minucioso para sua obra?


Alguns livros solicitam mais imaginação; outros, mais pesquisaQuissama é um romance que tenta reunir as duas coisas com certa harmonia. Como você disse, viajei para conhecer os lugares em que ocorreria a ação. Isso foi bem legal. Descobri muitas coisas novas que sequer entraram no livro. Foi muito divertido.

Atualmente a febre entre os leitores da era digital é a plataforma e-book. Qual é seu ponto de vista referente a este universo? Existe alguma obra sua que encontramos em e-book?

Uma coisa é o livro, o texto. Outra é o suporte. Esse debate nos remete diretamente para a questão do suporte. Tirando isso, qual a diferença entre ler um romance em papel e um romance em versão digital? O bom do digital é que ele facilita o acesso a textos que antes demandariam tempo e dinheiro para consegui-los. É uma revolução no que diz respeito à distribuição de bens culturais, uma excelente oportunidade para quem está chegando ao mundo da literatura. No fim das contas, porém, acredito que as pessoas continuarão lendo em papel por um longo tempo, especialmente romances. Quissama acaba de sair em e-book.

Sobre os meios de divulgação. Não posso deixar de ressaltar o trabalho dos blogueiros literários, as resenhas e dos críticos literários, sejam eles amadores ou profissionais, qual a importância para os escritores de ter obras literárias resenhadas?


Como citei numa resposta anterior, o cenário está mudando para melhor. Os críticos dos jornalões já não possuem a importância de antes, o que lhes tira a possibilidade de cometer as grandes injustiças do passado. Por exemplo: condenar um nicho à indiferença e ao ostracismo, como ocorreu com a ficção científica, o terror, a fantasia e, de certa forma, o próprio romance policial. Há algo realmente novo na cena literária: os blogueiro e vlogueiros “amadores”, pessoas geralmente jovens que sentem uma grande necessidade de comentar o que estão lendo. É muito mais democrático, mesmo que uma boa parte dessas resenhas peque por superficialidade. Roger Chartier disse em meados dos anos 1990 que todo mundo, um dia, seria crítico literário. Estamos caminhando para isso, o que é ótimo.

Suas obras são bem diversificadas, tem: histórica, policial e suspense entre outros. Qual gênero mais aprecia? Tem preferência?

Tento escrever de tudo um pouco. Acredito que isso seja um reflexo imediato dos meus gostos enquanto leitor. Já que sou bem eclético na leitura, nada mais comum do que arriscar em tendências diferentes. Mas gosto mesmo é de uma história que prenda a atenção do leitor, que gere suspense, embora esse suspense nem sempre esteja ligado a assassinatos e coisas do tipo. O suspense pode estar no nosso cotidiano, nas pequeninas coisas do dia-a-dia, nos medos mais íntimos e corriqueiros.

Segundo pesquisa, no livro Entre a Brisa e a Madrugada, lançado em 1996, o narrador é você? Como foi o processo de ser o personagem do livro?

Na verdade, não sou personagem desse livro. Há outros textos em que brinquei com o meu nome e certas características da minha personalidade, como no caso de um conto chamado Canil para Cachorro Louco. No caso de Entre a Brisa e a Madrugada, tentei criar um narrador que enxergasse a sua realidade de forma distorcida e preconceituosa. Ele não tem nome, ou pelo menos o seu nome nunca é citado. Eu diria então que o narrador da história é o pronome “eu”.

Os leitores são os termômetros dos escritores, até mais que os críticos especializados. Como é sua relação com seus leitores?

Eu já dei mais de 400 palestras em escolas de ensino fundamental, médio e superior. É um excelente momento para ouvir os leitores, para tentar entender como eles enxergam os livros que escrevemos. Nesse sentido, outra ferramenta importante é a internet. Depois da internet, escritores e leitores naturalmente se tornaram mais próximos. Há quem ache isso ruim. Eu gosto, mas um cuidado é sempre necessário: escritor não é marqueteiro, nem sempre ele escreve para agradar. Às vezes o objetivo é justamente o oposto: um escritor também pode escrever para provocar, desafiar, irritar, inquietar. Não conheço nenhum grande autor que viveu de bajular o seu público.

Hoje a febre entre os leitores é o gênero erótico. Como você analisa esse tipo de mercado e sucesso entre os leitores?

A literatura erótica é antiga e altamente criativa. É um dos gêneros mais difíceis. Requer uma habilidade quase sobrenatural com as palavras. As fronteiras entre o sublime e o vulgar não são bem definidas. Além do mais, como descrever a mesma cena de dez formas diferentes ao longo de um romance? Se você tiver essa receita, recomendo que comece agora a escrever um conto erótico.


O seu livro A Máscara Ridente é um livro puxado para o erotismo? Fale um pouco dessa obra e como foi compor a protagonista?

A Máscara Ridente é um segmento do meu romance A Galeria Wilson, um livro complexo do ponto de vista narrativo, cheio de referências literárias, dialogismos textuais e “easter eggs”. Há no livro uma personagem escritora que escreve sob pseudônimo. Quando resolvi publicar o fragmento (que tem começo, meio e fim) em forma de livro, percebi que não havia nada mais justo do que atribuir a ela, Susan Smith, a autoria da obra.

Outra obra de sua autoria, titulada como: “Ler é uma droga”. Fale um pouco deste trabalho, o que levou a escrever sobre este tema? E aproveitando a linha deste pensamento, qual a importância da leitura para a formação do cidadão?

Trata-se de uma coleção de crônicas anteriormente publicadas nos jornais de Santa Catarina. A temática é sempre o livro, a leitura, os autores de que gosto, os livros que recomendo. O título surgiu de uma ideia simples: a leitura vicia e alucina, como se fosse uma droga ilícita. É uma viagem sem volta. Teve gente que estranhou o título, mas depois entendeu a brincadeira.

Qual foi sua última leitura? Conte sua experiência com a leitura.

Li Maldito, a biografia do Zé do Caixão. Quase morri de rir. Além de acompanhar a história de uma personalidade pra lá de inusitada, ainda pude aprender algo sobre o cinema nacional, a Boca do Lixo, o que é ser artista no Brasil.

Você trabalhou com crônicas para o Jornal Diário Catarinense, de Florianópolis. Conta como foi essa experiência de escrever e trabalhar com a imprensa?

Foi muito legal, durante dez anos. Depois cansou. Eu estava servindo a dois senhores, ou melhor, a um senhor e a uma senhora. O Jornalismo, um velho chato que me exigia prazos e formatos, e a Literatura, essa bela senhora que todas as noites me convidava para o seu palácio de sabores e delícias. Um dia ela chegou pra mim e disse: “Você não me ama mais, é isso? Ou me dá a atenção que eu mereço, ou vou te abandonar para sempre”. No dia seguinte pedi a conta nos jornais.

Você acha possível viver da literatura no Brasil?
Não.

O que podemos esperar de novidades na sua carreira? Quais são os próximos trabalhos?

Estou trabalhando no segundo volume do Quissama. Estão previstos três, mas nada impede que a série se estenda por mais títulos. No próximo ano, se tudo correr bem, lançarei o meu primeiro livro infantil. Muito obrigado pela entrevista.



"Obrigada Maicon pela disposição com a entrevista. Leituras Plus adorou conhecer um pouco sobre seu trabalho e inspirações" Paty OBS


Amanhã tem mais sobre Maicon Tenfen. Enquanto isso podem curtir a entrevista e a resenha Quissama - Clica aqui

Até.

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